15 de junho de 2017

OMD 2017 - o resumo


- Vale a pena perderes mais uma unha do pé? - pergunta de mim, para mim, perto do km 60.

E foi assim que o número de unhas que desejamos preservar se tornou uma bitola para avaliar a importância de uma prova. É uma bitola tão válida como outra qualquer e que adquiriu uma relevância significativa naquele sábado, quando levava mais de 11 horas de corrida e estava a pouco mais de 10 km da meta, e a minha resposta foi:

- Não.

Tão linda, tão brutal. 

O OMD 70k 2017 foi azarado desde o início. Com altas temperaturas ao longo do dia e uma má disposição que me impedia de me alimentar com a frequência desejada e, mais para o fim, até beber água.
Era para ter ficado pela Torre, aos 35km, por razões que depois contarei, sem remorsos. No entanto, ainda não tinha cumprido a razão pela qual quis voltar à Estrela, por isso segui.
A Garganta de Loriga, sem surpresas, tornou a custar. A minha never-ending story que este ano me abrasou a planta dos pés e me fez pagar uma unha. Era para ter ficado por Loriga, aos 47km, por razões que depois contarei, sem remorsos. No entanto, e embora ainda não o soubesse, ainda não tinha cumprido a razão pela qual quis voltar à Estrela, por isso segui.
Agora, para além da má disposição, cada passada era como caminhar sobre brasas. Cheguei a Valezim. Na pequena corporação de bombeiros, à beira da estrada principal, um controlo de passagem antes do PAC de Lapa dos Dinheiros, a 2 km de distância.
- Vale a pena perderes mais uma unha do pé?
- Não.

"Epá, Rute, mas a tão poucos quilómetros do fim, isso é quase morrer na praia! Não dava para continuares?" Dar, dava. Mas já não valia a pena. Este ano o prémio não estava na conclusão. Como é que eu soube? Porque o ano passado a minha resposta à pergunta anterior teria sido um determinado: sim! Ou melhor, teria sido um expansivo: F*CK YEAH!!! Teria pagado com as unhas todas, se fosse preciso, para ser finisher. Por isso, desta vez, eu soube: o que tinha ido ali fazer estava feito, não era necessário continuar. Sem remorsos.

O engraçado, é que até estava a fazer uma boa prova em termos de registo temporal, para mim. Se não diminuísse muito o ritmo nos últimos quilómetros, até iria melhorar o meu tempo em relação à minha prova de 2015. Portanto, se nem isso foi motivação suficiente para continuar, é porque tinha chegado a altura de dizer:

- Estrela, tens o meu coração, mas não podes ficar com mais nenhuma unha!

Apesar de todas as peripécias, algumas desagradáveis - para além dos pés em mau estado, posso, ou não, ter regurgitado líquidos junto a uma fonte - que farei questão de descrever pormenorizadamente (almas sensíveis abstenham-se de ler a crónica, foram avisados!), a prova acabou por ser memorável, no bom sentido. Por exemplo, porque foi completamente diferente daquilo que estava à espera, e não me refiro só à má disposição. A minha ideia inicial, como vos disse, era ir matar saudades, namorar a montanha, passar horas na sua companhia solitária. No entanto, das três participações que já levo desta prova, esta acabou por ser aquela em que menos tempo estive sozinha o que, não sendo o que eu queria, acabou por ser o que precisava.

Algumas crónicas são histórias de superação, motivadoras, outras são de reveses, cheias de acontecimentos mundanos, reais. A crónica do OMD deste ano não vai ser muito motivadora, quanto mais não seja por ter sido uma prova mais racional do que emocional (e eu, mais do que ninguém, gosto de um bom drama!). No entanto, está repleta de pequenas lutas pessoais e aspectos menos glamorosos da corrida que também merecem ser abordados. Serra da Estrela, nua e crua.
E eu, que ia só para ver as vistas... :) aprendi por lá o que precisava, e não o que queria.

6 de junho de 2017

O ano passado e este ano (OMD)

O ano passado, por esta altura, já andava uma pilha de nervos. Ou melhor, o ano passado, por esta altura, *a* prova já tinha sido, mas, como este ano a data foi adiada uma semana, vou reformular: o ano passado, a menos de uma semana da prova, eu era uma bomba-relógio prestes a rebentar de ansiedade.

Este ano, a vida pôs-se no caminho e os planos que tinha em termos de provas foram um pouco por água abaixo. No entanto, de uma coisa tinha a certeza: tinha de voltar à Serra da Estrela. E assim lá estarei, este sábado, para mais um dia memorável (pela positiva, espero eu!), em "casa".

É só retirar a neve da equação e será esta a paisagem que nos espera.

Este ano, já não tenho os aleatórios picos de ansiedade a meio do dia. Este ano, já não acordo e me deito a pensar na prova. Este ano, pouco falei sobre o que espero para este fim-de-semana, aqui ou fora do blogue (o ano passado TODA a gente - família, amigos, colegas de trabalho, desconhecidos que encontrava na fila do supermercado - sabia que ia correr 100 km).

Este ano, sei que nem sempre as coisas correm como a gente tinha planeado, e tudo bem na mesma. O ano passado, o OMD era *o* objectivo e tive a sorte de ter sido uma experiência incrível. Fui mesmo feliz. Este ano, espero ser feliz no OMD na mesma, mas com menos distância e menos pressão (auto-imposta). Quero namorar a serra, cada trilho, cada rocha, cada lagoa... E, se der, fazer as pazes com a Garganta de Loriga.

Apesar de não estar nervosa, pelo menos até hoje, com isto não quero dizer que esteja a encarar a prova com leviandade. Tenho muito respeito pela distância e, sobretudo, pela montanha. A montanha tem um Detector de Tretas infalível e é implacável com quem fez os mínimos. Por vezes, é implacável mesmo com quem fez os máximos, só para mostrar quem manda. Orgulho? Sobranceria? Vais estar a vomitá-los ao fim de umas horas, juntamente com os géis, barrinhas e isotónico ingeridos, se ela assim quiser.

Por isso, não vou lá para enfrentá-la. Não trabalhei o suficiente e não há como escondê-lo; assim que sentir as minhas primeiras passadas, ela vai saber. Vou lá para cortejá-la. Com sorte, pode ser que ela me ache piada e seja complacente. Senão, só tenho de me retirar de mansinho e voltar lá depois, tentar mais tarde. Mas voltar, voltar sempre. Ao contrário do que diz o ditado, a montanha nunca vem ter connosco, nós é que temos de ir ter com ela, e assim é que tem de ser.

Assim sendo, tenho feito os últimos treinos de forma serena e tentado evitar coisas sobre as quais não tenho controlo mas que são passíveis de me deixar muito nervosa, nomeadamente, o facto de no último treino longo me ter sentido horrível e sem energia (mau ensaio geral significa boa estreia, não é??) e o tempo. Evitei consultar sites meteorológicos nos últimos dias, portanto, como podem imaginar, foi óptimo quando hoje os noticiários começaram a anunciar as altas temperaturas para o final de semana... Dispensava esta informação que me deixa bastante apreensiva, mas, lá está, não posso fazer nada quanto a isso, por isso vou tentar não pensar muito.

Entretanto, posso dizer que estamos só em inícios de Junho mas o meu bronze de atleta já está bastante aprimorado.

Sexy...


Este ano, as provas parecem ter um percurso mais semelhante ao de 2015. O ano passado, como sabem, devido a alterações de última hora, as duas provas maiores tiveram de passar duas vezes na Torre, o que para mim não fez muito sentido. A chegada à Torre é icónica, uma vez é suficiente. Este ano a subida à Torre fica reservada para o pós-Alvoco, o que retira um pouco de distância e desnível aos 100 km+, mas nada de muito significativo.
Mas bom, desta vez deixo esse desafio para outros, para mim já será desafio suficiente tentar apelar ao coração da montanha. Só lamento não fazer a parte nocturna, já que foi o que mais gostei (e sempre escapava ao sol durante um bocado).

Agora que terminei esta crónica sobre o assunto, se calhar estou a ficar um bocadiiiinho ansiosa. Só um bocadinho. :)

24 de maio de 2017

Até ao topo

Uma vez a cada trezentos dias, gosto de fazer subidas. Com isto, não quero dizer que só treine subidas uma vez a cada trezentos dias. Eu treinar treino várias vezes, só que não gosto. Pelo menos durante. Mas depois, há uma ou duas milagrosas vezes por ano em que todos os astros se conjugam, e gosto bastante. Claro que nesses dias as subidas não me custam tanto. Não sei se se deve às exactas horas de sono, ao pequeno-almoço no ponto, à hidratação perfeita ao mililitro, ao corpo bem regenerado, a uma semana mais descansada no trabalho, ao bater de asas de uma borboleta no Japão, mas é um facto que, nesses dias, ir ali a subir não me custa tanto como habitual. Consigo fazer sempre a correr as rampas que normalmente teria de fazer parte a andar, a respiração não é tão ofegante e não vou ali todos os segundos a implorar por um acto de misericórdia divino.



Se já não andasse nisto há algum tempo, e fosse mais ingénua, ficaria toda entusiasmada a achar que finalmente o treino estava a dar resultado e que as subidas se iam tornar mais fáceis! Nope. Não se iludam. As subidas nunca ficam mais fáceis. Assim como o correr no geral. Nós é que vamos ficando mais fortes, dizem.

Neste dia em questão, suspeito que as condições meteorológicas ajudaram bastante.


Tinha chovido até minutos antes de darmos início ao treino, cá de baixo de São Pedro, mas de momento estava apenas nublado. À medida que começamos a subir, no entanto, a névoa vai-se tornando cada vez mais densa, ao ponto de começarmos a ficar molhados da cacimba. Também não é fácil correr com grande percentagem de humidade, mas ali por Sintra é quase um dado adquirido e, além disso, teria sido muito pior fazer aquela subida com o sol sempre a bater, pelo menos para mim.


Se bem se lembram, a subida ao miradouro de Santa Eufémia foi algo que fiz várias vezes o ano passado, enquanto treinava para a Serra da Estrela. Há já algum tempo que lá não voltava, pelo menos a correr, por isso fiquei contente por conseguir fazê-la toda sem parar. Devagarinho, mas sem parar. A paisagem ajudou.


Chegando ao topo dos seus quase 470 metros de altitude, e aproveitando que estava num dia bom, foi dar meia-volta e tornar a subir, desta vez, em direcção ao ponto mais alto que se pode atingir em Sintra.


Atravessando os estradões envoltos em neblina,


e os bosques ainda mais mágicos,


até à Cruz Alta.

A Cruz Alta ergue-se no topo dos 527 metros da serra e permite uma bela panorâmica de 360º sobre a mesma...

... mas não neste dia, obviamente!

No entanto, o objectivo de ganhar acumulado estava cumprido, por isso agora era só aproveitar o resto da manhã fantástica e, de preferência, acrescentar-lhe mais uns quilómetros.


Apesar de ser linda em qualquer altura, a serra de Sintra envolta em brumas é, sem dúvida, a minha versão preferida. Ao correr por aquela floresta imperturbada, com apenas os nossos passos e respiração - e o ocasional cantar de um pássaro - a cortar o silêncio, quase que me sinto no meio de um cenário de fantasia, onde a qualquer momento nos podemos deparar com uma situação ou personagens surreais.


Bom, e sendo Sintra, a verdade é que já me deparei com várias coisas estranhas, mas não neste dia. Este foi mesmo um dia de treino perfeito, física e mentalmente.


Fiz as subidinhas todas a sentir-me sempre forte e sem me queixar. Raridade! E completamente assoberbada pela minha sorte em poder ter treinos destes, num sítio tão especial.


Quer dizer, eu estou sempre agradecida dessa minha "sorte", mas há dias em que é como se nos apaixonássemos de novo pela primeira vez. Nada mau nesta relação eu -vs- Serra de Sintra que já leva uns 5 anos.


Já eu -vs- subidas... é uma relação de altos e baixos. ;)

Está a fazer exactamente um ano desde os últimos treinos "a sério" nesta área, por motivos de força maior. Quase 2000 metros maior, se bem se lembram. A seguir a isso, sejamos honestos, desleixei-me completamente. Estava farta de treinar e queria correr à minha vontade, sem pensar em quilómetros e desníveis. O que não tem mal nenhum, até querermos voltar a ter objectivos.
Agora, tenho novamente motivos de força (2000 metros) maior. Apesar de, desta vez, querer regressar à Serra da Estrela por saudades e não por desafio, a montanha não se compadece de meios-esforços.

Mas esse é um tema para outra crónica, esta foi mesmo só para vos deixar aqui fotos mete-nojo bonitas. :)